15.7.13

Talvez ele não seja seu príncipe, Cinderela... - Jariane Ribeiro



A sexta feira amanheceu abafada. A brisa leve e morna não conseguia amenizar o calor. Bia e Manu chegaram ao parque e se jogaram na grama ainda molhada de orvalho.
 Sentei-me em um balanço de frente para o lago. A ponta de meu all star chuck Taylor preto desbotado que combinava com minha jardineira jeans vermelha estava ficando molhada e coberta de grama.
As meninas encontraram uma coleguinha da escola e começaram a brincar de se esconder, eu as olhava sorrindo. Era bom ser criança e poder correr de braços abertos recebendo o vento sem ter ninguém olhando.
Segurei as correntes do balanço e comecei a me balançar lentamente. Quando era pequena eu pedia para minha mãe me empurrar cada vez mais alto, acreditava que desse jeito estava voando e a qualquer momento poderia alcançar o céu.
Lembrei da música IT’S TIME de Imagine Dragons, comecei a cantarolar baixinho lembrando-me da tradução:

Não quero nunca te decepcionar
Não quero nunca deixar essa cidade
Porque, no final das contas,
Esta cidade nunca dorme à noite
Não sei por que mais essa música me dá uma sensação de liberdade, uma vontade de sair voando em um balão e dar a volta ao mundo, abandonando a faculdade e qualquer coisa que me prenda a monótona realidade.
Pensando em abandonar tudo me vem Henrique na cabeça. Pensar nisso me dá medo, medo além do necessário.
- Oi, Kerolayne.
Olho para o balanço ao meu lado me deparando com Pedro, ele está vestindo calça jeans preta e camiseta branca está usando all star como eu.
- Oi – respondo sem muito entusiasmo.
- Sabe, é sexta feira. As pessoas ficam animadas na sexta feira – seus cabelos bagunçados estão molhados e ele morde o lábio ao dizer isso.
- Eu não - dou de ombros.
- Você é estranha.
- Eu sei – suspiro – nunca fui normal.
Pedro me encara tombando a cabeça de lado.
- Não estou vendo nada estranho, só sua palidez óbvia.
- Quando alguém fala que te ama, significa isso mesmo? – pergunto rápido antes que me arrependa.
- Acho que sim – continua me encarando – seu príncipe te falou isso?
- Falou – por que cargas d’água eu estava conversando com ele sobre isso?
- E você não saiu pulando ou algo assim? – gira as correntes do balanço parando em minha direção.
- Não – giro ficando de frente pra ele – na realidade isso me deu vontade de sair correndo.
- Pensei que as garotas ficassem felizes ao saber que alguém as ama.
- Eu também pensei isso até descobrir que eu não amo Henrique – aperto as correntes me sentindo mal.
- O que você falou pra ele? – é evidente sua curiosidade.
- Menti – olho para meus próprios pés me sentindo como Lana Winberger.
- Sério?
- Sério.
Qual era o meu problema? Estava tão desesperada por não amar Henrique que estava fazendo de Pedro meu confidente? Justo ele que me atormentava e adorava falar o quanto meu senso romântico me levaria para o buraco.
- Acho que deveria conversar com esse garoto e dar um pé nele.
Levanto a cabeça o encarando atônita, sua afirmação é a mesma que tem passado por minha cabeça desde ontem quando Henrique me falou isso. Estou me sentindo presa e cruel.
- Nem me olhe assim – ergue os braços – você não gosta dele então o certo é dar um fim no problema ou no caso seu lance com o príncipe.
- Isso não seria cruel?
- Mais cruel seria você continuar com ele não sentindo o mesmo.
Mordo os lábios e me balanço. Tudo o que Pedro falou por mais estranho que pareça é o que eu mesma havia pensado. Eu queria viver um romance no qual só de a pessoa encostar em mim minhas mãos formigassem ou de só pensar nela um sorriso idiota surgisse em meus lábios.
Claro que no começo do namoro eu sorria ao pensar em Henrique, mais logo isso mudou. Eu não sei o que eu quero que ele não tenha e sinceramente tudo o que eu penso sobre Henrique me dá medo.
- Eu tenho que terminar com ele – falo para mim mesma tentando me convencer que isso era o certo a se fazer.
- Isso ai – Pedro me faz um gesto positivo com um sorriso zombeteiro estampado em seu rosto. Eu tenho novamente aquela vontade de me trancar em um quarto escuro com ele.
- Apesar de isso parecer estranho você me ajudou Pedro – sorrio.
- De nada, Cinderela.
Faz uma reverência exagerada que me faz rir apesar de não entender a comparação com a Gata Borralheira.
Bia vem correndo em minha direção com os cachos bagunçados grudando do rosto corado, elas estavam com a babá da amiguinha.
- Karolayne! – grita feliz e eu sorrio - você tem que ver isso.
Para na minha frente e abre a mãozinha. Em seu interior está uma minhoca nojenta e morta.
- Ai credo! – pulo do balanço e sacudo sua mão jogando o bicho longe – você não deve mexer com minhocas nem baratas e muito menos lesmas.
- Mais ela é tão bonitinha – faz um beicinho enquanto limpo sua mão com um lenço umedecido.
- É um bicho muito mau.
Pedro começa a rir de minha reação e Bia senta na grama e ri também.
- Isso não tem graça – sento ao lado de Bia e lhe lanço um olhar mal.
- Tem sim – olha para irmã com um olhar travesso – minhocas são comidas de peixe.
- Sério? – ela arregala os olhos tão verdes quanto os dele – vou virar uma caçadora de minhocas.
- Não vai não – arregalo os olhos – meninas não caçam minhocas, elas caçam, borboletas.
 - Borboletas são lagartas com trajes de gala – Pedro senta na grama ao lado da irmã – e lagartas devem ser primas das minhocas.
- Isso é legal – ela pula no colo dele rindo.
- Muito legal – resmungo chamando Manu que estava sentada um pouco mais a frente.
- Bá – a mini encrenqueira se joga em meu colo – Você viu que legal a minhoca?
- Minhocas são nojentas – tiro os cabelos de seu rosto.
- Não são – Pedro ri – elas são essenciais para se ter um solo saudável.
- Você é um chato – faço um beicinho.
- Você é fresca demais – Manu diz gargalhando.
- Engraçadinha como seu irmão – lhe faço cócegas.
Ficamos mais um tempo no parque, mais logo o sol se torna quente demais, pego as meninas pelas pequenas mãos e vamos para casa, Pedro caminha ao meu lado, Manuela preguiçosa prefere ir no colo do irmão já Bia vai pulando agarrada em  minha mão.
Quando chegamos à casa de Marta elas correm atrás de Nancy para lhes contar as novidades, eu sento na beira da piscina colocando o braço na frente dos olhos.
Meu celular toca e eu abro a mensagem de Henrique me sentindo mais uma vez uma líder de torcida malvada.
“Bom dia minha flor, hoje percebi que seus olhos são tão brilhantes quanto às estrelas, jantar hoje?”
Guardo o celular mais uma vez no bolso e respiro fundo, hoje seria o momento decisivo.
- Talvez ele não seja seu príncipe, Cinderela.
Murmuro para mim mesma.

Semana que em tem mais!!!
Beijos!!!!













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